São Luís Maria Grignion de Montfort, vitral da igreja de São Pedro em Domagné, na Bretanha. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
SantoSão Luís Maria Grignion de Montfort
A história dele tem duas metades, e a segunda começou cento e vinte e seis anos depois da morte.
Um padre que ninguém queria
Luís Maria Grignion nasceu em Montfort-sur-Meu, na Bretanha, em 31 de janeiro de 1673, o mais velho de dezoito irmãos, dos quais só oito chegaram à idade adulta.
Foi a pé de Rennes a Paris para estudar — trezentos quilômetros —, e no caminho deu a roupa boa ao primeiro pobre que encontrou. Foi ordenado em 1700.
Quis ir para as missões do Canadá; mandaram-no para o hospital de Poitiers, cuidar de indigentes. Ali fundou, com Maria Luísa Trichet, as Filhas da Sabedoria, em 1703 — congregação de mulheres para servir os pobres e os doentes.
Foi expulso do hospital. Foi expulso de diocese após diocese. Pregava de um jeito que incomodava: montava cruzeiros enormes, queimava livros licenciosos em praça pública, punha o povo inteiro a cantar catecismo em verso. Bispos o proibiam de pregar nas suas terras.
Em 1706 foi a Roma a pé pedir ao papa que decidisse a sua vida. Clemente XI o ouviu, mandou-o de volta à França e deu-lhe um título que era ao mesmo tempo permissão e sentença: missionário apostólico. Pregaria onde os bispos o aceitassem.
Dezesseis anos de estrada
Passou o resto da vida em missões populares no oeste da França — Bretanha, Poitou, Vendeia. Chegava numa aldeia, ficava algumas semanas, pregava, confessava, reerguia a fé de gente que mal via um padre, e ia embora a pé para a seguinte.
Em 1705 fundou a Companhia de Maria, os padres monfortinos, para continuar o trabalho.
Morreu em Saint-Laurent-sur-Sèvre, em 28 de abril de 1716, com 43 anos, pregando uma missão. Está enterrado ali.
O livro na caixa
Em 1712, entre duas missões, escreveu o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.
No próprio texto previu o que ia acontecer com ele:
"Prevejo que muitas bestas ferozes virão furiosas para dilacerar com os seus dentes diabólicos este pequeno escrito... ou ao menos para o fazer sumir nas trevas e no silêncio de uma arca, a fim de que não apareça."
Foi exatamente o que se deu. Durante a Revolução Francesa, os monfortinos esconderam os papéis numa caixa, em Saint-Laurent-sur-Sèvre. Ali ficaram.
Em 29 de abril de 1842 — cento e trinta anos depois de escrito — um missionário da Companhia de Maria abriu a caixa e achou o manuscrito.
Estava incompleto. Dos dezenove cadernos originais, os sete primeiros se perderam; do oitavo sobraram dez páginas, e do último, seis. O que temos começa no meio de uma frase.
O que o livro diz
A ideia central cabe numa linha: Maria é o caminho mais curto e mais seguro para Jesus, e a Ela nos entregamos por inteiro — corpo, alma, bens e méritos — para que Ela nos leve a Ele.
Montfort foi taxativo sobre o que isso não é. Não é rezar a Maria no lugar de Deus, nem pôr Nossa Senhora acima de Cristo. É o contrário: tudo em Maria existe por causa de Cristo e termina nele.
"Toda a nossa perfeição consiste em nos conformarmos, unirmos e consagrarmos a Jesus Cristo. E como Maria é, de todas as criaturas, a que mais se conforma a Ele, segue-se que ela é, de todas as devoções, a que mais consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor."
O papa que o leu numa pedreira
Em 1940, um operário polonês de vinte anos, com a família inteira morta, achou o Tratado.
Karol Wojtyła contou depois que a leitura foi uma virada: ele temia que a devoção a Maria tirasse espaço de Cristo, e Montfort lhe mostrou o contrário. Tirou dali o lema que pôs no brasão de bispo e levou até a morte: Totus Tuus — todo teu.
Em 2003 escreveu que ao Tratado devia "uma virada decisiva" na sua vida.
Santo
Foi beatificado por Leão XIII em 1888 e canonizado por Pio XII em 1947.
A festa é em 28 de abril, o dia da morte. Seis anos depois da canonização, aquele operário seria ordenado padre.
Padroeiro(a) de: Padroeiro dos pregadores de missões populares; mestre da consagração a Jesus por Maria