Padre Pio com os estigmas, fotografia de 19 de agosto de 1919. Placido Bux. Domínio público, via Wikimedia Commons.
SantoSão Padre Pio de Pietrelcina
Ele é, depois de Francisco de Assis, o italiano mais retratado nas casas do mundo: barba branca, olhos fundos, as mãos enroladas em mitenes de lã. Poucos sabem que aqueles mitenes cobriam feridas abertas que sangraram por cinquenta anos — e menos gente ainda sabe que a Igreja o proibiu de celebrar Missa em público e de confessar durante dois anos, enquanto investigava se aquilo era santidade ou engano.
O menino de Pietrelcina
Francesco Forgione nasceu em Pietrelcina, na província de Benevento, em 25 de maio de 1887, e foi batizado no dia seguinte. A família era de camponeses pobres; o pai, Grazio, emigrou duas vezes para os Estados Unidos para pagar os estudos do filho.
Desde criança dizia que falava com Jesus e com Nossa Senhora, e estranhava que os outros não falassem. Contava isso como quem conta que chove.
Em 6 de janeiro de 1903, aos quinze anos, entrou no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos, em Morcone. No dia 22 de janeiro recebeu o hábito e o nome com que o mundo o conheceria: Frei Pio de Pietrelcina. Fez os votos solenes em 27 de janeiro de 1907 e foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910, na catedral de Benevento.
Doente, mandado de volta para casa
Os primeiros anos de sacerdócio foram um vaivém humilhante. A saúde ruía — febres altíssimas, vômitos, um quadro que os médicos nunca souberam nomear —, e os superiores o mandavam repetidamente de volta a Pietrelcina, onde ele melhorava e para onde tornava a voltar.
Chegou a ser convocado pelo Exército na Primeira Guerra e dispensado por doença.
Em setembro de 1916 foi enviado ao convento de Santa Maria das Graças, em San Giovanni Rotondo, no monte Gargano, na Apúlia. Era um lugar pobre e isolado, escolhido porque o ar da montanha lhe faria bem. Ali ficou pelos cinquenta e dois anos que lhe restavam.
20 de setembro de 1918
Naquela manhã, sozinho no coro da igrejinha, rezando diante do crucifixo depois da Missa, aconteceu.
Ele descreveu, numa carta ao diretor espiritual, uma figura misteriosa que o traspassou — e o que ficou depois:
"Vi diante de mim um personagem misterioso... As suas mãos, os seus pés e o seu lado gotejavam sangue. [...] Desde aquele dia estou ferido de morte."
Quando o encontraram, sangrava das mãos, dos pés e do lado. Eram os estigmas — e Padre Pio se tornou o primeiro sacerdote conhecido na história da Igreja a carregá-los.
As feridas não infeccionaram, não cicatrizaram e não pararam. Sangraram por meio século. Médicos de vários países o examinaram, alguns enviados pela própria Santa Sé, e nenhum explicou. Ele detestava o assunto e passou a usar mitenes para esconder as mãos.
A Igreja desconfiou — e fez bem
É a parte que quase nunca se conta, e é a mais importante.
Quando uma multidão começou a subir a montanha atrás do frade que sangrava, a Igreja não aplaudiu. Investigou. O Santo Ofício mandou observadores, recolheu depoimentos, ouviu acusações — algumas caluniosas, vindas de dentro de casa.
Em 1922 vieram as primeiras restrições: proibido mostrar as chagas, falar delas, deixar que fossem tocadas. E entre 1931 e 1933 veio a mais dura de todas: Padre Pio foi proibido de celebrar Missa em público e de ouvir confissões. Ficou recolhido, celebrando sozinho numa capela interna.
A reação dele é o que faz dele santo. Não escreveu cartas de protesto, não mobilizou devotos, não deu entrevistas. Obedeceu, em silêncio, por dois anos. Quando um superior lhe perguntou o que sentia, respondeu que a vontade dos superiores era a vontade de Deus.
Em 1933, Pio XI mandou restituir-lhe as faculdades, com uma frase que ficou: "Não fui mal disposto contra o Padre Pio, mas fui mal informado."
Dezesseis horas no confessionário
Devolvido ao ministério, ele fez do confessionário o trabalho da vida. Passava de dez a dezesseis horas por dia ali dentro, ano após ano. A fila era tão longa que se marcava hora com semanas de antecedência.
Não era um confessor doce. Era rápido, às vezes áspero, e chegava a mandar gente embora sem absolvição — para voltar de verdade arrependida. Mas dizia coisas que as pessoas guardavam a vida inteira, e não raro sabia o pecado antes de ser dito.
A Missa dele durava às vezes duas horas. As pessoas atravessavam a Itália para assistir.
A recomendação que mais repetia é a mais simples que existe:
"Reza, espera e não te preocupes."
Em 1947, um jovem sacerdote polonês chamado Karol Wojtyła subiu a montanha para se confessar com ele. Cinquenta e cinco anos depois, seria ele a canonizá-lo.
O hospital no meio da montanha
Um frade sem um centavo, num vilarejo sem estrada decente, decidiu em 1940 que ali se construiria um hospital — e não um qualquer.
A Casa Sollievo della Sofferenza, a "Casa do Alívio do Sofrimento", foi inaugurada em 5 de maio de 1956, erguida com doações do mundo inteiro que chegavam em envelopes de gente pobre. Ele não a quis chamar de hospital: queria um lugar onde o doente fosse tratado como pessoa e não como caso, com a medicina e a oração no mesmo edifício.
É hoje um dos maiores hospitais da Itália, com mais de mil leitos, centro de pesquisa e referência em doenças raras. Continua funcionando, e continua sendo dele.
Junto com o hospital nasceram os Grupos de Oração, que ele chamava de "viveiros de fé". Existem hoje em mais de sessenta países.
A morte, e as mãos limpas
Na madrugada de 23 de setembro de 1968, aos 81 anos, morreu em San Giovanni Rotondo, com o terço nas mãos. As últimas palavras foram os nomes de sempre: Gesù, Maria.
No dia anterior tinha celebrado a Missa do quinquagésimo aniversário dos estigmas.
Quando prepararam o corpo, encontraram o que ninguém esperava: as chagas tinham desaparecido. As mãos, os pés e o lado estavam sem ferida e sem cicatriz — a pele lisa, como se nunca tivesse havido nada.
Mais de cem mil pessoas foram ao funeral.
Santo
O processo começou em 1982. Foi beatificado em 2 de maio de 1999 e canonizado por São João Paulo II em 16 de junho de 2002, diante de uma das maiores multidões já reunidas na Praça de São Pedro.
A festa é em 23 de setembro, o dia da morte.
San Giovanni Rotondo recebe hoje mais peregrinos do que quase qualquer outro santuário da Europa. Mas o que ele deixou não foi um lugar: foi um exemplo pequeno e repetível — confessar-se, rezar o terço, obedecer quando dói, e aliviar o sofrimento de quem está do lado.
"Reza, espera e não te preocupes. A preocupação não serve para nada. Deus é misericordioso e escutará a tua oração."
Padroeiro(a) de: Padroeiro dos que sofrem, dos doentes e dos que se confessam; invocado pelo alívio na dor e pela conversão